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Por: Celso Alexandre Souza de Alvear - Pesquisador-Extensionista do Soltec e Professor do mestrado do NIDES

Rio de Janeiro, 15 de março de 2018

Em nome da diretoria do NIDES, escrevo esse depoimento:

Conheci Marielle em uma reunião na Comissão de Defesa de Direitos Humanos e Cidadania (CDDHC) da ALERJ no início de 2015. A convite do professor Meirelles, outra grande pessoa que perdi no ano passado, fui na CDDHC ver como poderia melhorar o processo de acompanhamento das denuncias de violáção dos direitos humanos. Desde a primeira reunião com a Marielle, fiquei impressionado com sua capacidade de diálogo, sua inteligencia, sua sensibilidade apesar de toda sua firmeza, sua paciência com todas e todos e muitas outras características que claramente a faziam uma liderança indiscutível.

Mas não era só isso, toda a história dela era incrível, mulher, negra, favelada da Maré, mãe bem cedo na vida, e apesar de viver na pele e na carne o que é ser isso no Brasil, conseguia ter paciência para dialogar e ter muito carinho por pessoas privilegiadas como eu, homem, branco, classe média, hétero, e mesmo com pessoas conservadoras. Mas essa calma e dialogicidade que ela tinha, em nada diminuia a capacidade dela de estar nas favelas, nas periferias, aonde tinha ocorrido uma chacina, ou seja, no front da luta sempre perto daqueles e daquelas que mais precisavam do apoio dela e da CDDHC. E não era só ela, era toda uma equipe da CDDHC, que ficava claro como respeitavam ela e estavam na luta lado a lado dela, e nunca abaixo ou atrás, outra característica que tornava ela uma grande liderança.

Assim, trabalhamos juntos durante 2015 na melhoria do sistema da ALERJ, junto com alunos da eletrônica e da computação da UFRJ. Não tenho dúvidas sobre como essa experiência mudou a vida deles, lembro de eles relatarem em aula como choraram ao ouvir alguns atendimentos da comissão. Depois convidei ela mais de uma vez para vir ao Soltec e ao mestrado do NIDES debater sobre Favela e Economia Popular e Solidária e Tecnologia e Racismo na disciplina Teoria Crítica da Tecnologia. E vinhamos dialogando para pensar outras ações conjuntas. 

Hoje, dia 15 de março de 2018, acordo e quando olho o celular vejo várias mensagens de alunas e alunos, de amigos e familiares sobre o falecimento da Marielle. Corri para ver as noticias na internet, torcendo para ser algum boato, mas não era. Além da tristeza enorme, por perder a liderança política que eu mais acreditava e uma grande amiga, meu sentimento maior no momento é de ódio. Ódio ao fascismo que vemos crescendo na sociedade, ao golpe político que vivemos desde 2016, mas que na verdade vem desde uma reconciliação com algozes da ditadura, o perdão de crimes contra a humanidade, e depois governos que cederam e buscaram conciliações inaceitáveis. Ódio a todos nós privilegiados que não fazemos o suficiente contra a morte diária de jovens, negras e negros, favelados, indígenas, quilombolas, agricultores familiares, mulheres e muitos outros grupos que vivem a margem de nossa sociedade.

Assim, vim hoje dar a primeira aula da disciplina da Teoria Crítica da Tecnologia. Quis inicialmente fazer uma homenagem a tudo que Marielle representou a muitos de nós que militamos por um mundo mais justo. Quis homenageá-la pela contribuição ao Soltec e ao mestrado do NIDES, e lamentar enormemente sua perda. Mas também quis dizer aos alunos que não podemos deixar esse sentimento nos parar e imobilizar. Marielle convivia com a morte de amigos da Maré e de outras favelas todo dia, e nunca parava. Eu, privilegiado que sou, não tenho o direito de parar ou de perder a esperança. E não posso nem tenho o direito de deixar esse ódio me consumir.

Disse para os alunos e reforço que hoje eu não tinha condições de dar aula, e que daqui a pouco iria para o velório e o ato, mas que outro professor continuaria a aula sobre o Capital. Que aqueles que tivessem condições físicas e psicológicas deveriam continuar na aula, pois para lutarmos pelo mundo que queremos não basta só ativismo, como também não basta só reflexão. Temos que alternar momenttos de ativismo e momentos de reflexão crítica, até para revermos sempre nossa luta. Infelizmente, nós que lutamos perdemos a toda semana amigos ou sofremos golpes a ataques políticos contra tudo que lutamos. Mas se ficarmos só reagindo a cada momento desse, não construímos a transformação que queremos para daqui a vários anos. Temos que lutar pelo hoje e pelo amanhã ao mesmo tempo, e isso é uma das coisas mais difíceis da luta, pois existem muitas contradições nesse caminho.

Deixo abaixo algumas fotos de Marielle no Soltec e na confraternização no fim da aula de TCT no ano passado. E parto com muita tristeza para o velório de minha grande amiga Marielle Franco.

Marielle no Soltec
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Marielle com a turma de TCT 2017.1
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Marielle com a turma de TCT 2017.1

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