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Nelson Andrés Ravelo Franco

Ex-integrante do SOLTEC e mestre em 2018 pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia para o Desenvolvimento Social (PPGTDS/NIDES)

 

     
      

O texto a seguir é o primeiro da série Tecnologia e transição energética justa. Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da SOLTEC.

       
     

 

Há duas semanas, se realizou o I Encontro de Tecnologias e Saberes em Agroecologia e Reforma Agrária, e houve uma mesa intitulada "Energia para a vida no campo: autonomia, sustentabilidade e soberania energética popular". Esse encontro surge da parceria entre o Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST). Aproveitando que tive a sorte, há uns anos, de contribuir com essa parceria desde a temática energética, gostaria de refletir sobre o quanto é importante que essas lutas tornem cada vez mais visíveis seus elos [0].

 

Conteúdo do artigo

Cartaz da mesa sobre Energia. Fonte:https://www.instagram.com/tangara.nides/

 

Para alguns pode parecer uma pergunta desnecessária de se fazer. Parece óbvio que a disputa por um modelo energético envolve tipos particulares de tecnologia. Porém, existem confusões que não são apenas conceituais e que, por isso, podem limitar que essas lutas atinjam efetivamente a soberania e a justiça [1]. Nos discursos se fala da energia como se fosse a mesma coisa que o combustível, da tecnologia como se fosse apenas um tipo de aparelho, ou das duas (energia e tecnologia) como se fossem equivalentes.

Na verdade, tecnologia e energia são dois elementos constitutivos do modelo de produção e reprodução da vida, junto a um terceiro, a natureza. As duas têm um componente material ao qual costumam se reduzir, mas na verdade são sistemas humanos e, nesse sentido, são também uma relação social. Para entender melhor esta complexidade, a seguir vou tentar partir da visão reduzida para apontar caminhos para tornar mais integral a inserção da tecnologia nessas lutas por um modelo energético soberano e justo.

Muitas dessas lutas pela energia usam uma diversidade de conceitos [2] com os quais primeiro reivindicam o acesso das pessoas à energia. Porém, atingir essa meta não necessariamente requer uma transformação do modelo energético. As mesmas corporações de combustível fóssil promovem a ideia da superação da pobreza energética, porque o que estão procurando é garantir um maior número de consumidores para seus produtos e, por isso, pressionam para que sejam "baratos".

Uma família pode ter "acesso" ao gás fóssil na sua casa a preço subsidiado, mas o investimento público na rede de transporte de gás pode forçar a dependência dela durante décadas, enquanto a crise climática segue piorando. Mas a questão não é apenas a tubulação: são as normas técnicas, a isenção de impostos, o investimento e os pesquisadores dedicados ao setor fóssil, o desenvolvimento de fogões a gás, etc. É todo um sistema tecnológico que possibilita esse acesso enquanto garante o lucro das corporações do setor.

Um caminho possível para resolver esse dilema poderia parecer a mudança do tipo de combustível. Se todas as instituições mudassem sua orientação para "transitar" a uma matriz energética "limpa", não haveria mais "lock-in" de carbono. Mas, como aconteceu no Brasil, no México ou no Uruguai, grandes empreendimentos de energias renováveis podem gerar novos territórios de sacrifício ou manter o difícil acesso, pois, mesmo tendo a infraestrutura suficiente, o preço continua dependendo da geração de lucro para essas corporações. Então, não é uma questão apenas de "escolher" uma solução tecnológica mais pertinente.

 

Conteúdo do artigo

Fonte: https://www.instagram.com/tangara.nides/

 

Um outro caminho possível é o esforço que muitas organizações sociais têm feito para implementar iniciativas de gestão comunitária da energia. Elas se constituem em sujeitos habilitados para falar sobre o modelo energético a partir da experimentação local. Nesse caso não é apenas importante o acesso à energia, mas o acesso aos meios para produzi-la. E para isso é inegável a importância da pesquisa em energias renováveis [3] ou o desenho de políticas públicas de suporte, como as de comunidades ou cooperativas energéticas.

Porém, essas mudanças não vão surgir da boa vontade dos governos, ou das sugestões informadas pela ciência [4]. É necessária uma aliança social, intersetorial, que force que elas aconteçam. Mas ela não pode se fechar a cientistas, tomadores de decisão, nem às iniciativas de gestão comunitária da energia ou ONGs. É necessário envolver outros movimentos e organizações sociais, com capacidade de mobilização, mas que podem não estar reconhecendo como suas lutas (por alimento saudável, saúde, mobilidade digna, qualidade do ar, habitação digna, segurança, privacidade, acesso à informação, por paz, pela restituição de direitos em conflitos ambientais, etc.) estão mediadas tanto pela energia quanto pela tecnologia.

Tanto a energia quanto a tecnologia são campos de disputa, e seus sistemas não podem estar mais submetidos à relação social de mercadoria. É por isso que são necessárias ações para construir uma soberania [5] desde o local, regional até o nível internacional, que dispute a orientação desses dois sistemas. Se isso não se fizer, um país ou uma região podem fazer mudanças muito interessantes na busca de justiça e soberania, mas suas ações podem ser desfeitas num abrir e fechar de olhos [6] pela especulação financeira dos capitais internacionais [7], que criam dependência pelo caminho através dos lock-in tecnológicos e de mecanismos como a dívida.

 

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Foto compartilhada pela equipe do Tangará

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 Texto publicado originalmente em: https://www.linkedin.com/pulse/qual-%C3%A9-o-papel-da-tecnologia-na-soberania-energ%C3%A9tica-ou-xvmpe

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[0] Além do conteúdo da mesa, que ultrapassa as discussões desta publicação, estas reflexões dialogam com minha própria experiência no Brasil, com o artigo "Energy Sovereignty: A Values‑Based Conceptual Analysis" e com meus aprendizados dos últimos anos sobre Transição Energética Justa no Censat Agua Viva - Amigos da Terra Colômbia. Nos últimos anos tentei estimular esse vínculo entre o movimento da tecnologia social no Brasil e a luta das experiências de energias comunitárias na Colômbia; se tiverem interesse sobre esse elo, podem ver este artigo ou este vídeo.

[1] É importante esclarecer que, durante a mesa, os diferentes palestrantes deixaram claro que se identificam mais com uma transição energética "popular" do que com uma transição energética "justa". E, por isso, o nome da mesa não inclui apenas o conceito de soberania energética, mas também acrescenta o adjetivo "popular".

[2] Como democracia energética, pobreza energética, justiça energética, justiça distributiva, soberania energética, direito à energia, entre outros.

[3] Esse tipo de fontes de energia, pelas suas propriedades, pode se desenvolver de forma distribuída e em pequena escala.

[4] A mesma "ciência" leva décadas anunciando os riscos da crise climática e sugerindo compromissos e mudanças, mas o poder das corporações não muda em função desses resultados de pesquisa.

[5] Não como conceito vinculado aos Estados-Nação que ingenuamente acham que têm o direito de tomar decisões autônomas sobre seus territórios, mas como poder de autodeterminação dos povos.

[6] Como aconteceu com o início da guerra entre Rússia e Ucrânia ou recentemente entre EUA e Irã. O gás fóssil se vestiu de verde depois da primeira, e agora as economias dependentes da exportação de hidrocarbonetos estão achando que os preços internacionais altos do petróleo são uma oportunidade.

[7] É urgente ter mecanismos em diferentes níveis que limitem o poder corporativo.

 
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Um dos grandes desafios para o Soltec, assim como para outros programas do NIDES, durante esse período pandêmico, foi a tentativa de combinar os processos de integração e formação que estavam completamente ligados às nossas imersões nos territórios de atuação.
 
As atividades do Soltec, de alguma maneira, sempre buscaram criar e fortalecer os laços de confiança e afeto, que marcam a identidade do núcleo desde a sua fundação. O distanciamento social, portanto, extremamente necessário para o enfrentamento do Covid-19, se mostrou uma enorme ameaça à manutenção dessa essência.
 
Para lidar com as novas possibilidades de interação, tivemos que nos reinventar, reativamos o canal do YouTube, movimentamos nossas redes sociais e promovemos uma série de atividades, na tentativa de articular todas as ações que conseguimos manter ativas de forma remota.
 
O final de semana do dia 23 de outubro, no entanto, depois de um longo período afastados do campo, marcou um retorno gradual e cuidadoso das nossas visitas ao campo. Dessa vez, nos juntamos ao Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP) Luiza Mahin, da Faculdade Nacional de Direito, para apoiar um parceiro em comum: o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, no acampamento Cícero Guedes.
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O acampamento fica em Campos dos Goytacazes, na Usina Cambaíba, um território formado por sete fazendas que somam cerca de 3.500 hectares. Em 1998, a área foi decretada pelo governo federal para fins de reforma agrária. Anos mais tarde, em 2012, o local foi considerado improdutivo pela Justiça. Em junho desse ano, a Justiça Federal autorizou a desapropriação do local, que é alvo de disputa há mais de 21 anos, destinando a área ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para assentar famílias camponesas.
 
O Caci (projeto Campo Cidade), assim como os estudantes que compõem o TGARF (Tecnologia e Gestão em Assentamentos da Reforma Agrária), bloco de projetos que apoiam a reforma agrária e formam parceria com o LITS (Laboratório de Tecnologia Social da UFRJ Macaé) e a UNIRIO, estiveram presentes, fortalecendo os laços da nossa assessoria técnica.
 
Para esse retorno, contamos com o apoio para a testagem de todos os estudantes no CTD (Centro de Triagem Diagnóstica) do CCS (Centro de Ciência e Saúde da UFRJ), além do transporte universitário, como protocolo necessário para a visitação.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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FlyerSelecaoCestasChamada pública do Projeto de Extensão TIC-DeMoS

 

Estão abertas, até o dia 29 de novembro de 2020, as inscrições para assessoria na confecção de sites para vendas de cestas agroecológicas, pelo Projeto Tecnologias da Informação e Comunicação, Democracia e Movimentos Sociais (TIC-DeMoS) do SOLTEC/NIDES/UFRJ.

 

A proposta dessa chamada pública é promover a inclusão de projetos ou iniciativas de venda de produtos agroecológicos no comércio eletrônico (encomendas pela internet).

 

Podem participar iniciativas, projetos, ações, práticas, cooperativas, redes e coletivos que tenham um processo de comercialização de produtos agroecológicos estruturado.


 
Mais informações em http://www.cestaagroecologica.com.br

FlyerSelecaoCestas

Chamada pública do Projeto de Extensão TIC-DeMoS

 

 

 

O resultado da chamada pública se encontra em http://www.cestaagroecologica.com.br

CapaRelatorioCaci2020

O projeto de extensão Campo-Cidade do Soltec lança em parceria com o projeto Assessoria técnica aos coletivos de produção da agricultura familiar do Departamento de Engenharia de Produção da UNIRIO o relatório de pesquisa “Experiências de Comercialização de Cestas da Agricultura Familiar no Rio de Janeiro” desenvolvida entre outubro de 2019 à julho de 2020. Clique aqui ou na imagem ao lado para baixar.

 

A pesquisa traz breves contribuições e reflexões sobre o cenário de organização da comercialização, em formato de cestas, de alimentos orgânicos e agroecológicos oriundos da agricultura familiar na cidade do RJ.

 

O relatório foi construído com base no mapeamento e análise das experiências concretas em diálogo com bibliografias existentes da área.

 

 

 

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